Tepequém: Espaço físico e místico

O Tepequém está situado entre os limites da Venezuela e o estado de Roraima, em uma  região onde a vegetação varia entre campos e floresta virgens, sendo que a imponência de suas belezas naturais são demonstradas no seu ponto mais alto, situado a 1200 m de altitude. O Tepequém está localizado a aproximadamente 200 km da capital Boa Vista-RR. Geograficamente encontra-se entre o rio Amajarí, ao norte, e a ilha de Maracá, a sul. 

O Tepequém deve seu nome a uma origem incerta. Tradicionalmente registra-se que o seu nome é originado das palavras indígenas "Tupã queem" que quer dizer "Deus do fogo" por assim se localizar sobre um vulcão extinto há alguns milhares de anos. Esse vulcão místico e zangado, que queimava as roças das malocas próximas, só foi aplacado com a oferenda de três belas índias virgens, cujas lágrimas se tornaram diamantes. Outras fontes apontam para a figura de Robert Hermmam Schomburgk (1804-1865) que, patrocinado pela Royal Geographical Society em 1830, visava estabelecer os limites do território da colônia inglesa na América do Sul.

Schomburgk usou a palavra “top” para descrever as serras e, para a maior delas ele denominou “serra-rei”, isto é, “Top-king”, que passou a ser, na boca dos caboclos da terra, “Tepe-quém”. É um gigantesco bloco rochoso de forma tabular e litologia predominante arenítica, o que na região denomina-se de tepui (tepuyes), termo indígena do grupo Pemon, usado para denominar as montanhas encontradas na Gran Sabana venezuelana e proximidades, que apresentam forma semelhante a uma mesa.

Também se considera o termo tepui uma variação do top/tepe. A serra localiza-se em uma formação geológica muito antiga que remonta ao pré-cambriano, e que dadas as suas características apresenta uma rica formação mineral, por isso vem desde o século XIX, provocando a curiosidade e a cobiça de muitas expedições.

O tepui localizado no Tepequém tem seu topo cortado por um vale que abriga duas lindas cachoeiras – Paiva e Funil – e é fronteado por três pequenas serras. A mesma cosmogonia macuxi que, explica a existência dos diamantes, traduz que as três pequenas serras simbolizam as três virgens, e que as duas lindas cachoeiras mostram o caminho por onde percorreram suas lágrimas, motivo da alegria dos futuros garimpeiros.

Quando a história começa 

Os registros a respeito da origem do garimpo e povoamento do Tepequém são cercados de incertezas e desencontros históricos. Alguns dos fatos relevantes para a forte migração e consequentemente a criação da comunidade, encontram-se documentados nas Crônicas do Rio Branco, documento escrito pelos monges beneditinos residentes na região de Boa Vista em meados de 1936. Dom Alcuino Meyer relata a respeito de um experiente garimpeiro paraibano Severino Pereira da Silva, que vivia na região do Cotingo: “Severino foi ao Rio de Janeiro de avião levando muitos quilos de ouro e uma grande quantidade de diamantes no ano de 1936” (Rodrigues, 2009; Vieira, 2009, p.86 e 87), fazendo assim a propaganda do potencial mineral da serra, incentivando que pessoas de várias regiões do Brasil, principalmente do Norte e Nordeste viessem a tentar fazer fortuna nos garimpos de Roraima. 

No mesmo documento encontra-se também o relato de uma das primeiras expedições para exploração do minério, datada de 1930, quando chegou ao Tepequém o geólogo guianense Mezach Breunstz, conhecido como Bruston, natural daGuiana Holandesa, hoje Suriname, acompanhado de dois homens. Estes chamados a serra por uns dos fazendeiros da região, Antônio Piauí, financiador da expedição e que buscava afirmações a respeito da existência de diamantes na região.

Territórios e fronteiras 

A memória dos grandes ganhos do período, também está naqueles que promoveram o garimpo na região. A estes, associa-se o feito heroico de desbravamento e promoção do crescimento econômico de Boa Vista, além do termo “garimpeiro”, como alcunha honorífica. A memória do garimpo do Tepequém se materializa nos monumentos que lhe representam. 

Cabe aqui uma separação, o estabelecimento de uma fronteira clara, porém invisível – aquela que separa o cenário do garimpo daquele construído pelo crescimento econômico que este gerou – entre Tepequém e Boa Vista. 

Uma visita ao Tepequém, quer na Vila, seu centro, quer nos espaços das antigas corruptelas do Paiva ou Cabo Sobral, é suficiente para identificarmos lugares de memória (Nora, 1993) caracterizados por ruínas, antigos equipamentos, velhas carcaças de aviões, Willys e Jeeps. Estes marcos são pontos de referência que interligam com a grande árvore onde, contam, eram cravados a tiros de espingarda os diamantes de pequenos quilates sob o grito de “vai crescer!”, desprezados ante à oportunidade diária de mais e maiores pedras.

Remanescente desta época encontra-se, em local de destaque na Praça do Centro Cívico da capital de Roraima, “O Monumento aos Garimpeiros”, construído na década de 1960, na administração do governador Hélio Campos. O Monumento mostra um homem garimpando com sua bateia. A escultura foi projetada pelo topógrafo e auxiliar de engenheiro Walter de Mello Bastos e pelo desenhista e artesão Francisco da Luz Moraes, mais conhecido como Japurá. 

Recém chegado em Boa Vista e eleito o primeiro governador do antigo Território Federal de Roraima, Hélio Campos procurava vertentes promissoras ao desenvolvimento econômico do seu pleito. Na época as opções eram as grandes fazendas de gado de leite e corte espalhadas por todo o território e a exploração do garimpo de ouro e diamantes, feito manualmente. Após estudar as opções, Hélio Campos resolveu que o caminho que lhe traria mais frutos seria o da extração mineral. Unindo então à responsabilidade de construir a cidade, encomendou a construção de um marco do desenvolvimento, nascendo assim em frente ao atual Palácio do Governo “Senador Hélio Campos”, o monumento que homenageia – como dito em muitos documentos – “os responsáveis pelo desenvolvimento do estado” (Espiridião, 2011). 

Cravados na placa de inauguração, aos pés do monumento, encontram-se os nomes de poucos dos garimpeiros de quem se conta história, como: Mochão, Levino de Oliveira, Nego Pina, Velho Barrudada, Luiz Oliveira, Zé Ferreira, João de M. Rodrigues, Wando Preto, Zelio Mota, Lídio Sousa, Jonas Dias, Waldemar Pisa Miúdo, Mariano Vieira, Rubens Lima (pai), Zé da Russa, Honorato Lima, Vicente Araújo, Zé Queiroz, Paraíba Pilão, Zé Francisco, Crisnel Ramalho e Onésimo Cruz. Estes poucos nomes estão distantes de representar ou de valorizar verdadeiramente a importância que o garimpeiro e sua cultura tiveram para o estado de Roraima e representa menos ainda as aspirações e visões dos garimpeiros que buscam seu lugar de memória junto à história do desenvolvimento do estado.

O relato oral dos garimpeiros do Tepequém como Antônio Bezerra Nunes, Aracati, João Araújo de Souza (Cuia), Zé Maria, Neuza, Passarão, Pedro (Pedro do Ônibus) e Porvina que foram colhidos pelo professor Devair Antônio Fiorotti em seu projeto de pesquisa, bem como dos garimpeiros e filhos de garimpeiros residentes no Tepequém ainda nos dias de hoje, como Sidney, Dona Helena, alinham seu discurso cada um dentro do tempo que chegou. Os mais antigos falam de tudo o que viram, inclusive de como era o Tepequém original, isto é, antes do início do garimpo, o qual, segundo eles, não podemos imaginar a beleza. Os mais novos falam do que viram a partir do momento de sua chegada e dos nomes e histórias dos antigos, que se espalharam por gerações. Como testemunho, as ruínas, sucatas de automóveis e maquinários, atestando o fato matérico, ou as fotos montadas em um painel no pátio da casa de Dona Helena, como memorial, ou na simplicidade saudosa, como narrado nas palavras de um dos filhos do garimpo, o professor Sidney. 

Ambos apontam a mutação que sofreu o Tepequém ao longo do período de exploração, outros falam do desaparecimento total dos peixes, o que nos leva a crer também na extinção de espécimes próprias do habitat do tepuí, mostra também que ambos apreciaram a paisagem da serra no seu estado original, mantida na memória e, ao relatar suas lembranças, parecem se omitir como participantes do cenário que causou a modificação da mesma, talvez por sua sensibilidade as belezas naturais terem sido ofuscadas pela dos diamantes ou pela incompreensão da degradação que estavam causando na juventude. 

Contudo, existem estudos que indicam espécies endêmicas do Tepequém, tanto de flora quanto de fauna, além da valorização como atrativo turístico as cachoeiras, rios e igarapés que foram transformados pela atividade de exploração, como o guia do Tepequém criado pelo agrônomo Dr. Francisco Joaci de Freitas Luz, onde até o areal remanescente dos diversos desvios do Igarapé do Paiva é tratado como “praias do Paiva” ou o “Tilim do Gringo”, uma grande fenda na rocha, feita à dinamite pelos garimpeiros para garantir novo curso de água, passa a ser ponto turístico. 

Fonte: MEMÓRIA DO GARIMPO DE DIAMANTES DO TEPEQUÉM: UMA NOVA PAISAGEM. NASCIMENTO, CLAUDIA HELENA CAMPOS (1); LIMA, EDNA TALLITTA DE MACKDEY DINIZ (2); SILVA, ERICK LIMA (3). Universidade Federal de Roraima. Departamento de Arquitetura e Urbanismo 

Referências 

BATISTA NETO, PAULINO. O que sei, eu conto; o que não sei, invento. Um estudo das narrativas orais dos garimpeiros da Serra do Tepequém/RR.2013. 

Capital de Roraima, Boa Vista é a Amazônia que o Brasil ainda desconhece. Disponível em <http://viagem.uol.com.br/guia/brasil/boa-vista>. Acesso em agosto de 2014. 

ESPIRIDIÃO, Francisco. Histórias de garimpo: extração mineral em terras roraimenses. Fortaleza: Tipogresso, 2011. 163p. 

GHEDIN, Leila Marcia. et al. Sinalização Turística: Uma proposta de uso turístico para a Serra do Tepequém. Revista Geográfica de América Central, Número Especial EGAL, II Semestre, Costa Rica, 2011 p. 1-17. 

NORA, Pierre. Entre Memória e História: a problemática dos lugares. In: Projeto História: Revista do Programa de Estudos Pós-Graduados em História e do Departamento de História da PUC/SP - n° 10. São Paulo: EDUC, 1993, p.7-28 (tradução Yara Aun Khoury). 

RODRIGUES, Emerson da silva; VIEIRA, Jaci Guilherme. Tepequém, do garimpo ao turismo. Tepoking (Rei dos Tepuis). Revista: Textos & Debates. V.1, n.16(2009). Ed.: UFRR 

VERAS, Antônio Tolrino de Resende. Turismo e desenvolvimento sustentável na Serra do Tepequém. Boa Vista: Universidade Federal de Roraima / Instituto de Geociências, 2011

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